Volvidas 72 horas desde o assassinato do bispo da Diocese de Quelimane, Dom Osório Citora Afonso, continua por esclarecer a orientação do crime que chocou a comunidade católica e a sociedade moçambicana. Até ao momento, nem o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) nem a Diocese de Quelimane divulgaram informações sobre os possíveis autores ou motivações do homicídio.
Enquanto decorrem as investigações, a residência episcopal transformou-se num local de peregrinação e solidariedade. Fiéis, líderes religiosos, acadêmicos e representantes de diferentes setores sociais têm ido ao local para prestar homenagem ao prelado, assassinado na madrugada de sábado.
Entre as manifestações de pesar destacaram-se a visita de membros da Comunidade Muçulmana Nativa, que expressaram consternação pela morte de uma figura reconhecida pelo diálogo inter-religioso e pela promoção da convivência mútua.
“O falecimento do Reverendíssimo Bispo acabou sendo um grande pesadelo para nós. Não há motivos para tirar a vida de um líder que nunca fez mal a ninguém, um homem de convivência e de irmandade. Precisamos que este caso seja esclarecido porque é preocupante para todos nós”, afirmou Augusto Nobre, membro da Comunidade Muçulmana Nativa.
Também o corpo docente universitário Gaudêncio Material destacou o legado de proximidade deixado por Dom Osório Citora Afonso.
“Foi um bispo que aproximou todas as camadas sociais e até visitou comunidades de outras religiões. Transmitia a mensagem de um pastor que procurava unir-se à sociedade. Não pode haver pessoas destinadas a morrer naturalmente e outras vítimas de assassinatos”, lamentou.
À medida que aumenta a expectativa em torno dos resultados das investigações, especialistas defendem a necessidade de um trabalho forense especificamente para o esclarecimento do caso.
O capitão da reserva Abdul Machava, com formação em Balística, considera que a natureza do crime sugere uma acção realizada com elevado grau de preparação. Segundo a sua análise preliminar, baseada nas informações desconhecidas até o momento, a investigação deverá concentrar-se na trajetória do projeto, na localização dos impactos secundários e nos vestígios deixados pela munição.
“É fundamental que uma investigação seja conduzida com base em evidências científicas. Uma análise da trajetória do disparo, da distância dos tiros e dos vestígios balísticos poderá ajudar a construir o perfil do autor e a compreender a dinâmica do crime”, explicou.
Machava alertou ainda para a necessidade de reforçar a componente forense das investigações criminais no País.
“Não podemos continuar a assistir a incidentes desta natureza sem respostas claras. É preciso colocar dados cientificamente sustentados que permitam determinar quem fez, como fez e em que situações atuais”, defendeu.
A morte de Dom Osório Citora Afonso continua a gerar profunda comoção em Quelimane e em várias partes do País. Reconhecido pelo seu trabalho pastoral, pela defesa da paz e pela promoção do diálogo entre comunidades religiosas, o bispo era considerado uma das figuras mais respeitadas da Igreja Católica na região Centro de Moçambique.
À medida que avançam as investigações, os familiares e a sinceridade aguardam as respostas das autoridades sobre um crime que abalou, não apenas a Diocese de Quelimane, mas também a sociedade moçambicana, no seu todo.




