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Maputo pelos “15 Meticais” – O País

Olhar para aquilo que está permanentemente diante dos nossos olhos é, paradoxalmente, uma tarefa mais exigente, porque o óbvio tem o estranho hábito de anestesiar a nossa atenção. Cruzamo-nos diariamente com o fluxo que desenha a vida da cidade, desde o vaivém dos chapas interrompido a cada instante por travagens para instalar mais um passageiro, as portas que batem com força, os cobradores entregues para fora das janelas a disputar vozes e destinos, os passos apressados ​​de quem corre atrás do tempo e os filas que se desfazem e recompõem ao ritmo das chegadas e partidas.

Entre ombros desconhecidos, corpos comprimidos, olhos que se demoram para lá das janelas e mãos que se agarram a sacos, pastas ou pequenas esperanças. O compasso do amanhecer marca-se nos pés que percorrem as avenidas, o cansaço encontra abrigo nos assentos e uma névoa de sonhos continua guardada no peito de cada passageiro. É deste movimento que se inscreve na vida urbana que dá origem à exposição fotográfica “15 Meticais”.

Neste ensaio visual, a lente de Patrizia Bonfanti sintoniza-se com os acontecimentos mais puros da nossa paisagem urbana. Suspensas por fios no interior do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, onde a mostra foi inaugurada no passado dia 10 de junho e permanece patente até ao dia 24 do mesmo mês, as fotografias ocupam o espaço como extensões das ruas que retratam, transportando para a galeria o ritmo e a tensão de um quotidiano movido tanto a gasóleo como a suor, num processo que transforma o real em apropriação visual, como observa a ensaísta Susan Sontag “Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada”.

Ao incidir sobre os pequenos pontos de comércio informal que rodeiam as paragens, a narrativa fotográfica destaca os quinze meticais como unidade mínima de transação que estrutura grande parte dessas práticas. A presença de produtos como bolas, rebuçados e gasosas remete para uma rede de pequenas transações que sustenta o dia a dia de inúmeras famílias. Longe dos espaços onde se discutem os grandes indicadores macroeconómicos, é no valor de cada moeda que se decide, para muitos, a possibilidade de levar comida para casa.

Face a esta realidade, haverá uma estabilidade social dependente da capacidade quase ilimitada que os cidadãos demonstram em absorver os choques de uma economia traçada por fortes desigualdades, transformando a deficiência crónica numa rotina normalizada? Quando a arte nos leva a olhar para a vulnerabilidade de quem dinamiza o transporte e o comércio na cidade, surge a questão do custo humano necessário para manter esse movimento, evidenciando a distância entre as políticas de gestão pública e a experiência de quem precisa de se desdobrar para garantir o sustento.

No entanto, ao capturar o esforço de quem empurra um veículo ou empilhar laranjas com esmero, muitas vezes sem a menor consciência de estar a ser eternizado, a fotografia corre o risco de encerrar essas vidas num ciclo puramente contemplativo. Fica o dilema sobre o impacto deste olhar na existência dos sujeitos retratados, uma vez que, apagados os refletores, a rotina de quem foi fotografado permanece inalterada na margem da estrada.

É na materialidade do esforço físico que este enredo urbano ganha o seu contorno, visível na imagem onde os corpos se conjugam diretamente com a estrutura gasta da chapa semicolectiva. A fotografia capta a exaustão convertida em ação imediata, onde a viatura, castigada pelo tempo e pelo uso constante, exige esforço suplementar para se manter operacional. São os músculos em tensão para contornar as variações do transporte. Ao fundo, o braço levantado do cobrador repete o gesto tão reconhecível nas ruas, num sinal rápido que anuncia a partida iminente.

Esta imagem reúne as múltiplas batalhas que a exposição coloca em diálogo, onde a chapa deixa de ser uma moldura passiva para se firmar como eixo central de sobrevivência. O registro visual recusa a idealização do sacrifício, expondo a barreira física a que muitos se submetem para viabilizar cada rota e cada paragem. Através desta composição de Patrizia Bonfanti, desvela-se que a força que move estes homens provém das obrigações diárias de garantir o sustento familiar e o futuro da sua descendência na exigente jornada pelos quinze meticais.

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