CULTIV’ARTE aponta investimento e internacionalização como desafios para o setor cultural – O País
A necessidade de mais investimento, novas parcerias e acesso aos mercados internacionais dominou os debates da terceira edição do Fórum Cultural e Criativo Cultiv’arte, que reuniu em Maputo artistas, gestores culturais e representantes do Governo para discutir estratégias de fortalecimento das indústrias culturais e criativas no país.
Realizado ao longo de dois dias, o encontro serviu de plataforma para a partilha de experiências, apresentação de oportunidades de cooperação e reflexão sobre os principais desafios que continuam a limitar o desenvolvimento do sector cultural em Moçambique. Num contexto em que a cultura procura afirmar-se como um instrumento de desenvolvimento económico e social, os participantes defendem a necessidade de criar condições para transformar o potencial criativo existente no país em oportunidades concretas de negócio, emprego e geração de rendimento.
O fórum reuniu profissionais de diferentes áreas das artes e da cultura, desde gestores de projetos culturais, produtores, artistas e empreendedores criativos até representantes de instituições nacionais e parceiros internacionais. Entre os temas que dominaram a investigação tiveram a capacitação dos agentes culturais, o acesso ao financiamento, a criação de redes de colaboração e a internacionalização dos projectos culturais moçambicanos.
Para o coordenador do Projecto Cultiv’arte, Mattieu Gardon, esta edição interessa responder às preocupações dos profissionais que já se encontram inseridos no sector e procuram consolidar as suas iniciativas num mercado cada vez mais competitivo.
“Esta terceira edição é mais focada no meu projeto. Já tenho uma atividade, já estou trabalhando, mas como posso crescer? Como posso criar novas parcerias, principalmente públicas ou privadas? Como vou desenvolver meu mercado? Como posso me internacionalizar?”, afirmou.
Segundo Gardon, um dos objetivos centrais do fórum foi aproximar os criadores de cultura nacionais de experiências e oportunidades internacionais que lhes permitem expandir os seus horizontes profissionais e comerciais. Para isso, o evento conta com a participação de representantes de festivais internacionais, programas regionais de cooperação e instituições ligadas ao desenvolvimento das indústrias culturais e criativas.
“Teremos participantes estrangeiros, de festivais internacionais como o Bushfire, de outras áreas geográficas, como o projeto que temos no Oceano Índico, que traz oportunidades para moçambicanos, coisas pouco conhecidas. Também teremos um retorno da experiência continental, através do Instituto em Paris, que implementa grandes programas em outras regiões”, explicou.
O responsável considera que a criação de pontes entre os profissionais moçambicanos e os mercados externos pode representar uma oportunidade para aumentar a circulação de produtos culturais nacionais e abrir novas perspectivas para o setor.
“Nossa expectativa é que isso gere mais conexões. Os projetos que serão apresentados contam com a participação de profissionais do setor cultural e criativo nacional. Há também participantes que estão começando agora. Portanto, esse ecossistema deve favorecer ambos os lados”, acrescentou.
Além da internacionalização, o fortalecimento institucional foi apontado como um dos pilares fundamentais para o crescimento sustentável das indústrias culturais e criativas. UM Secretária de Estado das Artes e CulturaMatilde Muocha, destacou os resultados alcançados pelo projecto ao longo dos últimos anos e sublinhou a importância da capacitação dos diferentes intervenientes do sector.
“Este é um projeto que tem um pilar muito importante: o fortalecimento institucional, ou seja, o fortalecimento do setor cultural e criativo do Ministério. Isso significa o desenvolvimento de competências para que esse setor possa contribuir melhor o setor público”, afirmou.
De acordo com Muocha, a iniciativa contribuiu para o desenvolvimento de capacidades técnicas, para a promoção de espaços de diálogo e para a criação de instrumentos que possam apoiar a implementação de políticas públicas voltadas para o setor cultural.
“Um dos elementos é a formação de diferentes atores do setor para que possam desenvolver as suas capacidades. Outro aspecto é o desenvolvimento de políticas e instrumentos”, acrescentou.
Apesar dos avanços registados, os participantes consideraram que a questão do financiamento continua a representar um dos maiores obstáculos ao crescimento das indústrias culturais e criativas. Muitos profissionais consideram que o talento e a criatividade existentes no país nem sempre encontram o suporte financeiro necessário para garantir a sustentabilidade dos projetos.
Para o assistente da iniciativa, Mélio Tinga, a consolidação do sector depende da existência de investimentos regulares e do longo prazo que permite aos artistas desenvolver o seu trabalho com estabilidade.
“O setor artístico tem a sorte de contar com esse investimento e acredito que precisa de ainda mais investimentos, porque a própria arte, sem um investimento sério, sem um investimento regular e recorrente, acaba fracassando de alguma forma”, afirmou.
Tinga considera que programas de mobilidade, intercâmbios e fóruns de partilha de experiências desempenham um papel importante na valorização dos profissionais da cultura e na expansão das suas oportunidades de trabalho.
“Acho que o trabalho que a Cultiv’arte realiza em diferentes programas, em fóruns como este, em programas de mobilidade, por exemplo, que conectam artistas com outros espaços, com outras pessoas, é de grande valor, no sentido de ser uma ferramenta que permite expandir a sua rede de contactos e, a partir daí, podem surgir parcerias que tornem o seu trabalho ainda mais conhecido”, explicou.
Ao longo do encontro, os participantes defenderam igualmente a necessidade de encarar a cultura não apenas como uma expressão artística, mas também como um sector económico capaz de gerar riqueza, emprego e inclusão social. O entendimento partilhado foi de que o fortalecimento das indústrias culturais e criativas exige uma acção coordenada entre Governo, parceiros de cooperação, sector privado e profissionais da cultura.
A terceira edição do Fórum Cultural e Criativo Cultiv’arte terminou com o desafio de transformar as reflexões produzidas durante os dois dias em ações concretas que contribuem para a sustentabilidade do setor.



