Os operadores dizem que a exigência de depósitos homologados está fora do escopo financeiro e alertam para o risco de condicionamento das ligações marítimas de passageiros.
A crise de combustíveis que vive no país está empurrando vários setores para soluções de recurso. Nas estradas, os bidões tornaram-se alternativas para muitos automobilistas que tentam garantir alguns litros de combustível. No mar, porém, a mesma prática é transformar um novo foco de tensão entre operadores e autoridades.
Em Inhambane, os transportadores de passageiros dizem estar a enfrentar sérias dificuldades para abastecer as embarcações, depois da importação do uso de bidões para transporte ou armazenamento de combustível. A medida, justificada por razões de segurança, está a afectar sobretudo operadores que não possuam depósitos homologados e que dependam diariamente do combustível para garantir a circulação entre as margens.
Para estes operadores, o problema é simples: não é possível levar uma embarcação até uma bomba de combustível. Sem tanques funcionais e sem uma solução alternativa acessível, muitos deles estarão a viver dias de humilhação, incerteza e prejuízo.
Arlindo Natingue, da Associação dos Transportadores Marítimos de Inhambane, afirma que a situação se tornou insustentável para quem trabalha no transporte marítimo de passageiros.
“Estamos a passar muito mal. Somos humilhados dia após dia nas bombas, porque somos obrigados a não abastecer via bidões, enquanto não é possível levarmos o barco para as bombas. Não temos outra alternativa”, lamenta.
Segundo os operadores, a jurisdição afeta diretamente a atividade, porque grande parte das embarcações utiliza motores que dependem de combustível transportado a partir das bombas. Em muitos casos, os depósitos originais dos motores já não existem, estão danificados ou são difíceis de substituir no mercado local.
Natingue explica que muitos transportadores recorrem a recipientes improvisados, não por escolha, mas por falta de alternativas. Diz-se que os depósitos homologados exigidos pelas autoridades são de difícil aquisição e, para muitos operadores, estão fora da capacidade financeira.
“Nós não temos esses bidões próprios. Estamos a usar bidões de óleo de cozinha de 20 e 10 litros. É isso que usamos, porque às vezes a pessoa compra o motor e ele não vem com tanque original. Ou vem com tanque original, mas depois quebra ou fura. E aqui não há loja onde podemos comprar outro”, explica.
A situação coloca os operadores entre duas pressões: cumprir as exigências legais ou garantir o funcionamento do transporte marítimo de passageiros. Para quem depende do mar todos os dias, a margem de manobra é cada vez menor.
Entre a escassez de combustível, a fiscalização nas bombas e a necessidade de transporte de passageiros, os operadores dizem que o trabalho passou a exigir uma verdadeira análise diária. Há quem percorra várias bombas à procura de um posto que vende óleo combustível, mas, segundo a associação, a recusa tornou-se generalizada.
“Temos que correr de bomba em bomba. Chegamos a um sítio, talvez aceitem abastecer, mas estamos a sofrer muito. Ainda há dias saiu um grupo de passageiros da Maxixe para tentar abastecer nas bombas, mas estavam a negar combustível”, conta Arlindo Natingue.
Questionado se a dificuldade ocorre apenas em algumas bombas, o representante dos transportadores marítimos diz que o problema é praticamente geral.
“É em todas as bombas. Mesmo aqui na cidade de Inhambane, não aceitamos que abasteçamos via bidões. Isso está a trazer muitos problemas e muita dificuldade para trabalharmos”, acrescenta.
O impasse ameaça diretamente a regularidade do transporte marítimo de passageiros, um serviço essencial para muitas famílias que dependem das ligações por barco para trabalhar, estudar, vender produtos ou acessar os serviços básicos.
Sem combustível, as embarcações ficam paradas. Com embarcações paradas, os passageiros perdem mobilidade. E, numa província onde o transporte marítimo é parte importante da vida económica e social, qualquer interrupção tem impacto imediato.
Os operadores confirmam a necessidade de segurança no manuseio de combustíveis, mas defendem que a aplicação da medida deve ter em conta a realidade do setor. Para a associação, as exigências de depósitos homologados sem criar condições para a sua aquisição apenas transferem o problema para quem já trabalha com dificuldades.
A classe pede tolerância às autoridades e uma solução prática que permite abastecer as embarcações sem comprometer a segurança, mas também sem paralisar o transporte marítimo de passageiros.
Para Arlindo Natingue, o setor não está a pedir autorização para trabalhar fora das regras. Está a pedir que as regras sejam acompanhadas de alternativas viáveis.
Enquanto essa solução não chega, os operadores continuam entre a bomba e o mar, à procura de combustível para manter as embarcações em movimento. E, no meio dessa pressão, quem mais sente o impacto é o passageiro, que depende do transporte marítimo para atravessar, chegar ao destino e seguir a vida.


