Erosão costeira e intrusão salina ameaçam salinas, machambas e casas no distrito de Govuro, mas moradores de Matique, Matasse e Mussanga respondem com acções locais de adaptação climática
O mar avança e a terra recua. Em Nova Mambone, no distrito de Govuro, província de Inhambane, as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se transformarem numa realidade concreta, sentida todos os dias por famílias que vivem entre o oceano, as salinas, as machambas e os bairros costeiros.
A erosão costeira e a intrusão salina estão redesenhando a paisagem e impulsionando os meios de subsistência das comunidades. Em alguns pontos, a água salgada aproxima-se das zonas de produção. Noutros, o solo perde firmeza. Há áreas onde as famílias já perceberam que o território que antes parecia seguro começa a ficar vulnerável.
Para os moradores, a mudança já não se fez apenas em discursos sobre o clima. Mede-se na produção que baixa, nas chuvas imprevisíveis, nos ventos fortes, nas salinas afetadas e nas machambas ameaçadas.
José Gomba, residente na vila de Nova Mambone, diz que a comunidade sente, de forma cada vez mais clara, os sinais de transformação do clima e do território. A preocupação maior é na velocidade com que o mar avança e na forma como a água salgada ameaça espaços usados para produção e sobrevivência das famílias.
Entre o mar e a terra, há quem viva essa fronteira todos os dias. São os salineiros, homens e mulheres que transformam a água salgada em sustento, mas que agora enfrentam um clima cada vez mais assustador.
Marques Jofe, salineiro em Nova Mambone, explica que a produção de sal está a ser afectada por fenómenos que antes eram mais previsíveis. Hoje, diz, já não é fácil saber quando vai chover, quando o vento vai mudar ou quando a evaporação será suficiente para garantir uma boa produção.
Segundo Marques Jofe, as chuvas irregulares e os ventos extremos alteram o ritmo natural das salinas. Quando chove fora do tempo, o processo atrasa. Quando o vento é muito forte, a água evapora rapidamente e compromete a qualidade e a quantidade de produção. Para quem depende desta atividade, cada alteração no clima tem impacto direto no rendimento familiar.
Foi também a partir dessa experiência que os salineiros perceberam a importância do mangal. Para eles, a floresta costeira não é apenas vegetação. É protecção. É equilíbrio. É uma barreira natural que ajuda a defender os canais, as salinas e as zonas próximas da costa.
Marques Jofe conta que, nas zonas onde existem canais de captação de água para as salinas, a presença do mangal é essencial. Quando o mangal desaparece, a área fica mais exposta. Quando é repovoado, ajuda a reduzir os impactos da erosão e a criar melhores condições para a continuidade da atividade salineira.
Nos bairros de Matique e Matasse, os moradores mudaram essa consciência em ação. Estão a repovoar o mangal, numa iniciativa comunitária que procura devolver força a uma das principais defesas naturais contra a erosão costeira e a intrusão salina.
O mangal funciona como escudo vivo. Segura o solo, reduz a força da água, protege contra a erosão, serve de berçário para diversas espécies marinhas e contribui para o equilíbrio do ecossistema costeiro. Para as comunidades, plantar mangal é defender a terra, proteger a produção e garantir que as próximas gerações ainda possam viver naquele território.
João Matique, líder comunitário, explica que a decisão de avançar com o repovoamento do mangal nasceu de reuniões com a população. A comunidade visse que não podia continuar a vigiar, de braços cruzados, à perda gradual das suas zonas de protecção natural.
Segundo João Matique, quando há ciclones ou marés mais fortes, as áreas sem mangal ficam mais vulneráveis. A água entra com maior força e aproxima-se das casas e das zonas de produção. Já onde existe mangal, a força da água é reduzida, dando maior protecção às famílias.
Manuel Domingos, residente do bairro Matique, reforça a mesma ideia. Para ele, plantar mangal é uma forma de defensor da comunidade antes que seja tarde. O residente lembra que os sinais de perigo já são visíveis e que esperar pela destruição total seria um erro. A resposta, defende, deve começar enquanto ainda há espaço para proteger o território.
No bairro de Mussanga, a resposta comunitária ganhou outra forma. Ali, a ameaça da intrusão salina e da erosão levou os moradores a construírem barreiras de contenção com sacos de areia. A solução é simples, mas tem sido vital para proteger machambas e reduzir a entrada de água salgada.
Albertina, residente do bairro Mussanga, conta que a comunidade decidiu agir com os meios disponíveis. Os sacos de areia foram colocados nas zonas mais frágeis para tentar travar a erosão e proteger as áreas de produção. A medida não resolve tudo, mas ajuda a ganhar tempo e a reduzir os prejuízos imediatos.
Para as famílias de Mussanga, cada machamba protegida representa alimento, rendimento e segurança. A intrusão salina não ameaça apenas a terra. Ameaça a vida econômica e social da comunidade. Quando a água salgada entra nas zonas de cultivo, compromete a fertilidade do solo e reduz a capacidade das famílias de produzir alimentos.
A resposta às mudanças climáticas, entretanto, não depende apenas da comunidade. As autoridades locais defendem que a adaptação deve envolver todos os actores, desde o Governo até às organizações da sociedade civil, passando pelas próprias comunidades afectadas.
Henrique Cabral, do Serviço Distrital de Planeamento e Infra-estruturas de Mambone, considera que o envolvimento comunitário é necessário para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Para o técnico, não basta o Governo traçar planos se as situações não estiverem envolvidas na sua execução.
Henrique Cabral defende que as comunidades devem ser parte activa da solução, sobretudo porque conhecer melhor os locais onde vivem e obter identificação rápida das zonas mais vulneráveis. O técnico sublinha ainda que boas práticas de gestão ambiental precisam de ser difundidas ao nível local, para que as respostas não sejam pontuais, mas permanentes.
Neste processo, a AJOAGO tem estado a caminhar lado a lado com as comunidades, apoiando ações de sensibilização, capacitação e mobilização comunitária. A organização aposta numa abordagem em que os moradores não são apenas beneficiários, mas protagonistas das soluções.
Sérgio Zimba, da AJOAGO, explica que a filosofia da organização parte da ideia de que a comunidade deve ser capaz de resolver os seus próprios problemas. Para isso, é preciso conhecimento, capacidade técnica e confiança para agir perante a variação do clima.
Segundo Sérgio Zimba, quando as soluções vêm apenas de fora, é difícil criar apropriação. Mas quando nascem dentro da comunidade, há maior possibilidade de continuidade. É por isso que a AJOAGO procura colocar o ambiente no centro das ações de adaptação climática.
A lógica é clara: quem vive o problema todos os dias também deve liderar a resposta. Em Nova Mambone, essa abordagem começa a produzir resultados visíveis. Os moradores plantam mangal, constroem barreiras, protegem machambas e discutem coletivamente formas de defesa do território.
A adaptação climática, neste contexto, deixa de ser uma expressão técnica distante e passa a ser uma prática cotidiana. Está no salineiro que percebe que sem mangal a sua atividade fica ameaçada. Você não é um líder comunitário que mobiliza a população para plantar. É um residente que carrega sacos de areia para proteger a machamba. Não é um técnico que acompanha as comunidades e a organização que fortalecem as capacidades locais.
Nova Mambone mostra, com clareza, que as mudanças climáticas já chegam às comunidades costeiras de Inhambane. Mas mostra também que a resposta não precisa esperar apenas por grandes obras ou soluções complexas. Em muitos casos, começa com acções simples, feitas pelas próprias mãos das comunidades, mas com enorme significado para a protecção da vida e do território.
O repovoamento do mangal em Matique e Matasse e a construção de barreiras de contenção em Mussanga revelam uma comunidade que se recusa a assistir passivamente à perda da sua terra. São respostas locais a problemas globais. São pequenas ações diante de uma ameaça enorme, mas com impacto direto na vida das famílias.
A luta contra as mudanças climáticas em Govuro tem rosto. Tem o rosto de José Gomba, que vê o mar aproximar-se. Tem o rosto de Marques Jofe, que sente a produção de sal ameaçada. Tem o rosto de João Matique e Manuel Domingos, que defendem o repovoamento do mangal. Tem o rosto de Albertina, que ajuda a erguer barreiras de areia para proteger as machambas. Tem também o rosto de técnicos e organizações que perceberam que a adaptação só funciona quando é construída com as pessoas.
Em Nova Mambone, a esperança não está apenas no discurso. Está no mangal que volta a crescer. Estão nos sacos de areia que trabalham com água salgada. Estão nas comunidades que se organizaram para defender o que ainda têm e recuperar o que começou a perder-se.
Ali, onde o mar avança e a terra recua, os moradores decidiram não recuar. Plantam, protegem, constroem e resistem. Porque, para estas comunidades, adaptar-se às mudanças climáticas não é uma escolha teórica. É uma questão de sobrevivência.



