Seis meses depois das inundações que devastaram o posto administrativo de Nguluzane, no distrito de Xai-Xai, província de Gaza, o cenário no terreno continua a revelar um quotidiano de profunda vulnerabilidade. Vias degradadas, ausência de energia elétrica, perda total da produção agrícola e o colapso das ligações básicas mantêm mais de 14 milhões de pessoas numa situação de sobrevivência diária.
No terreno, o governo distrital afirma estar a desenvolver diligências para a reposição das infraestruturas essenciais e o reforço da assistência humanitária. Contudo, as comunidades continuam a relatar dificuldades no acesso ao apoio regular e suficiente para responder às necessidades básicas.
“Desde a invasão das inundações, nunca houve assistência alimentar”, lamentou uma moradora de Totoé, reflectindo o sentimento de abandono referido por várias famílias.
No lugar da normalidade, instalou-se um fluxo permanente de deslocamentos. Mulheres, homens e crianças percorrem diariamente longas distâncias a pé, em carrinhas abertas ou em embarcações improvisadas no rio Limpopo, transportando o que oferecem para garantir a sobrevivência. “Ali pescamos peixe-preto, este que trago na bacia”, conta uma pescadora, enquanto tenta garantir algum rendimento num contexto económico fragilizado.
A dependência de Nguluzane em relação a Xai-Xai é total, sobretudo para acesso ao comércio e serviços essenciais. A ligação de cerca de 13 quilómetros transformou-se num percurso de sacrifício. “Hoje vamos percorrer este caminho a pé porque os carros não chegam devido à chuva e aos cortes na via”, explica um morador.
Os transportadores apontam prejuízos elevados. “Gastamos 3 mil meticais sem qualquer retorno”, refere-se a um operador, sublinhando que a gestão da estrada reduziu significativamente a circulação e aumentou os custos operacionais. “Os pneus estragam-se constantemente. A via está escorregadia e estou paralisada”, acrescenta outro transportador.
Ao longo do percurso, multiplicam-se histórias de resistência. Pequenos vendedores continuam a carregar produtos agrícolas e outros bens essenciais, apesar das dificuldades. “Estou com este molho de caniço para garantir o meu sustento. Se a via estivesse em condições, os compradores viriam até aqui”, afirma um vendedor local.
Entre o frio, a chuva e a precariedade da estrada, a vida segue num esforço contínuo de sobrevivência. Mulheres carregam bebês às costas e hortícolas na cabeça, numa rotina onde cada deslocamento é uma aposta contra a fome. “Às costas leva o bebê, na cabeça transporta as hortícolas e no corpo inteiro carrega a responsabilidade de alimentar cinco filhos”, descrevendo uma vendedeira.
As três vagas sucessivas de cheias, entre janeiro e março, alteraram profundamente a dinâmica da região. Seis meses depois, apesar da retirada das águas, os efeitos permaneceram ocultos. A ausência de energia elétrica e a falha na cobertura da rede móvel agravaram ainda mais o isolamento. “O primeiro sinal é a desconexão da rede móvel. Há quem chegue a pagar entre 25 e 30 meticais apenas para carregar um telemóvel”, refere um responsável local.
Com a destruição das colheitas, o custo de vida disparou. “O quilo de arroz está a 60 meticais e o sal entre 50 e 60 meticais”, relata uma residente, evidenciando a pressão económica sobre as famílias.
No plano da assistência, a administradora de Xai-Xai, Avelina Nhanzimo, afirma que ainda há cerca de 3 mil famílias por assistir no quadro humanitário. No entanto, admite incertezas quanto à disponibilidade de recursos alimentares. Segundo o responsável, neste momento há orientação para a realização da listagem das famílias afetadas, de modo a garantir o fornecimento de alimentos para pelo menos um mês, enquanto se aguarda a consolidação dos meios de resposta.
Já o edifício de Xai-Xai, Ossemane Adamo, garante que estão em curso intervenções estruturais, incluindo o planejamento da rede elétrica e obras de reconstrução dos diques, avaliadas em cerca de 60 milhões de meticais, como parte das medidas para estabilizar a situação e reduzir o impacto de futuras cheias.
Ainda assim, a população mantém o rigor. “Ainda não estamos satisfeitos, queríamos intervir até Mahelene por causa das covas na via”, afirmam os residentes, que continuam a pedir uma reabilitação mais abrangente das estradas e acessos.
Seis meses depois, Nguluzane continua suspenso entre a promessa de recuperação e a realidade da sobrevivência. As águas recuaram, mas deixaram um território onde a normalidade ainda não regresso e onde cada quilómetro continua a ser uma prova diária de resistência.



